segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Simplesmente tua













                          É sério. Eu não sabia que cabia tanto amor em mim ate esbarrar com teus olhos. Talvez eu nunca ficasse sabendo se, naquele dia, sucumbindo a inércia, eu tivesse permanecido em casa. Sim, porque eu meu sofá estávamos numa relação estável: assistíamos filmes e séries juntos todas as noite há meses. Foi com ele que desabafei todas as vezes que a solidão se alojou em meu peito. Foi no aconchego de seu abraço que adormeci muitas vezes...
                               Quantas vezes, exausta de rolar de um lado para o outro na cama, levantei por fim e busquei na sala o meu refúgio? As almofadas já com meu perfume impregnado, parceiras de abraços incontidos e suspiros demorados? Sim, esta parceria estava superando todas as expectativas e já poderia dizer que estávamos em uma "união estável"!
                         Mas, desafiando todas as leis da preguiça, eu resolvi sair de casa. Não que eu quisesse interagir, mas havia em mim uma necessidade premente de ver o sol, de sentir o vento, de ver pessoas. As vezes tenho isso: uma vontade de observar a vida lá fora, de sentir os aromas e me embriagar com os ruidos da selva urbana. Momentos que a fome de vida me impele a sair de mim mesma.
                         Lembro bem do momento em que te vi: um sopro de fantasia levitava em tua volta, serpenteando lascivamente entre teus cabelos. Meu olhar se demorou em cada movimento teu, enquanto meu coração saltitava enlouquecido. Quando passei por ti, teu cheiro veio ao meu encontro, entorpecendo cada fibra do meu ser. Não tive coragem de me aproximar, de puxar conversa, nada... Por horas, permaneci a te observar enquanto meus olhos se embriagavam com tua imagem.
                           Foi assim que aconteceu. Eu te vi e já te amei. Naquele dia eu descobri que não me pertencia, que sempre havia sido tua, apenas não tinha te encontrando ainda.



Foto: Simone Luz

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sábado, 29 de julho de 2017

Minha procura...










                       Quando eu acordei, não me encontrei. Olhos abertos, procurei pelo quarto mas nada. Eu estava só. Fiquei tentando me lembrar da noite anterior, refazendo cada um dos meus passos lentamente. Olhos fechados, rememorei cada palavra dita, cada movimento de meu olhar... nada. Revisitei todos os recantos, os pés exaustos, a vista turva...
                 Lentamente, abri os olhos e as janelas. Procurei um sinal que me mostrasse onde eu poderia estar. Nada. Permaneci vazia, a espera de minha volta. Lágrimas silenciosas escorriam por minha face pálida. Entre meus dedos, a saudade de mim se misturava a ansiedade do reencontro. Palavras soltas se despejavam por entre meus lábios secos.
                     Foi quando, entre soluços, percebi que vinha há tempos fugindo de mim... Cada segundo de sonho me fazia largar um pedaço de mim pelo mundo afora. Assim, sentimentos naufragados numa tempestade de amores febris corriam alucinados pelos campos ermos das memórias infinitas. Pequenas vilãs acorrentavam carícias febris aos olhares gélidos dos amores passageiros...
                   Meu pequeno universo estilhaçado em caos absoluto. Meu eu perdido de meu ser. Eu vazia de mim, ao mesmo tempo em busca e fuga. Gritando silenciosamente meu nome, enquanto me derramava pelas paredes viciadas da desilusão. Caos e desordem na perfeição complexa dos meus sentimentos desencontrados.
                   Acordar sem mim não tem sido fácil. Me perder de mim tem sido a pior parte de tua ausência.




Foto: Simone Luz
                   

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sábado, 22 de julho de 2017

Elas...







                         Naquela noite, ela dormiu feliz. Pela primeira vez em muitos anos, ela adormeceu com um sorriso nos lábios. Os olhos ainda estavam levemente avermelhados, o rosto meio inchado de chorar... Mas foram lágrimas de alegria! Naquela noite, ela dormiu plena. 
                         Foram tantos anos de sonhos, tantas noites de angústia, tantos desejos afogados na memória. Todos os dias ela saía sabendo que faltava uma parte, que a vida tinha algo maior e mais bonito para ela. Ela acumulava seus sonhos na gaveta, escondia sentimentos nos armários, tinha uma mala cheia de lembranças!
                            Mas, naquele dia tudo mudou. Ela encontrou seu pedaço. Ela se descobriu em outro rosto, em outro corpo, em outra história. Viu seus olhos brilharem em outros olhos, a cumplicidade que sorriu tímida e as lágrimas rolaram sem pudor. 
                       Por um instante, o mundo parou. E, em alguns segundos, tudo mudou. Tudo girou, e nada mais pode ficar no mesmo lugar. As gavetas da memória foram reviradas sem piedade, os sentimentos empoeirados saíram do armário primeiro tímidos, depois dançando alucinadamente. Os fantasmas que habitavam debaixo de camadas do verniz social foram dilacerados, definitivamente expulsos.
                          A partir daquele dia, somente flores nas janelas da alma. Sorrisos brincando pelos cômodos do peito, povoando de amor cada pedacinho outrora machucado. Porque naquele dia ela se encontrou com ela mesma, com a criança que ela um dia fora, e descobriu que a vida lhe dava uma nova chance. 
                      Naquele noite, duas almas sorriam felizes e reencontradas. E o sono extasiado de euforia, cedeu espaço para um novo dia. Porque, naquela noite, o mundo delas mudou.

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