Naquela noite, ela dormiu feliz. Pela primeira vez em muitos anos, ela adormeceu com um sorriso nos lábios. Os olhos ainda estavam levemente avermelhados, o rosto meio inchado de chorar... Mas foram lágrimas de alegria! Naquela noite, ela dormiu plena. 
                         Foram tantos anos de sonhos, tantas noites de angústia, tantos desejos afogados na memória. Todos os dias ela saía sabendo que faltava uma parte, que a vida tinha algo maior e mais bonito para ela. Ela acumulava seus sonhos na gaveta, escondia sentimentos nos armários, tinha uma mala cheia de lembranças!
                            Mas, naquele dia tudo mudou. Ela encontrou seu pedaço. Ela se descobriu em outro rosto, em outro corpo, em outra história. Viu seus olhos brilharem em outros olhos, a cumplicidade que sorriu tímida e as lágrimas rolaram sem pudor. 
                       Por um instante, o mundo parou. E, em alguns segundos, tudo mudou. Tudo girou, e nada mais pode ficar no mesmo lugar. As gavetas da memória foram reviradas sem piedade, os sentimentos empoeirados saíram do armário primeiro tímidos, depois dançando alucinadamente. Os fantasmas que habitavam debaixo de camadas do verniz social foram dilacerados, definitivamente expulsos.
                          A partir daquele dia, somente flores nas janelas da alma. Sorrisos brincando pelos cômodos do peito, povoando de amor cada pedacinho outrora machucado. Porque naquele dia ela se encontrou com ela mesma, com a criança que ela um dia fora, e descobriu que a vida lhe dava uma nova chance. 
                      Naquele noite, duas almas sorriam felizes e reencontradas. E o sono extasiado de euforia, cedeu espaço para um novo dia. Porque, naquela noite, o mundo delas mudou.






                 Desculpa, amor, eu sei que é tarde, mas eu preciso ir. Lá fora a cidade grita, as luzes piscam, a vida segue. Desculpa. Sei que já se faz tarde demais para isso, nossos corpos, nossos seres já se misturaram indefinidamente. Talvez ao me levantar eu acabe carregando algo de teu comigo, talvez deixe alguma parte minha... não sei.
                     Sei que é tarde, já permiti que teu cheiro se entranhasse em minhas memórias, e teu suor está salgado do meu. Não consigo. Te deixar é doloroso, meu verso sangra... mas a solidão, a minha eterna companheira, é possessiva, é ciumenta, é minha dona. Provavelmente terei mais uma noite insone, chorarei, e recordarei de cada detalhe: do sabor de teus lábios, da tua carícia suave, da tua respiração em meus ombros... Tudo isso ficou gravado em mim, amor. Tudo isso me conforta e me enforca ao mesmo tempo. Meus sentidos embaçados, meus lábios mudos, teu olhar distante.

                       Eu te perco e me dilacero quando parto, eu sei. Mas é preciso, amor... me perdoa...

                  Eu tinha tanta coisa pra te dizer ainda... eram tantos os abraços a te dar... eu tinha um sonho pra gente sonhar junto! Tinha teus braços abrindo minhas janelas, tinha nosso retrato na parede do nosso lar. Aquele retrato, lembras? Eu guardei no meu abraço a tua imagem... Deus! Por que tudo isso? Prá que esta ansiedade louca? por que essa tortura insana? Eu queria conseguir relaxar no teu regaço... eu queria viver o sonho... mas não posso. Desculpa, amor... a dor me invade, e eu já não resisto. Mais uma vez eu vou embora, desculpa, eu vou partir.



Foto: Simone Luz















                      Ele sonhou com ela de novo. Com ela sorrindo cheia de malícia enquanto caminhava nua pela casa, espalhando seu perfume e suas gargalhadas. Sentiu uma dor forte na virilha e se curvou, mas era tarde demais. Ela já tinha queimado a pele dele com o calor de seus beijos, tinha tatuado cada milímetro. Fazia já algum tempo que ele ouvia a voz dela cada vez que deitava. Já tinha se viciado no sabor de sua boca, e no som de seus gemidos durante o amor. Porque ela tinha essa mania louca de gritar seu prazer e depois deixar-se abandonar nos braços dele... aqueles momentos deliciosos em que seus seios se encaixavam perfeitamente nas mãos dele... e que suas mãos percorriam ávidas as trilhas do seu prazer... 
                     E de novo ele sonhou e se amaldiçoou. Pelas palavras não ditas, pelos olhos pequenos dela que, à porta da sala, questionavam seus lábios mudos... pelo telefone que não tocou, pela viagem não feita, pela noite só... foram tantos os silêncios, tantas as perguntas não respondidas... foram tantos "adeus"... 
                     Até hoje ele não sabe. Na verdade, ele não entendeu muito bem o que aconteceu. Ele saiu, sem dizer quando voltava, e ela o beijou como em todas as vezes. Ela esperou como todas as noites, enquanto ele vivia sua vidinha de sempre. Ele cortejou todas as amigas, como sempre o fez. E ela acompanhou de longe. Como sempre, também. Quando o dia nasceu de novo, ele não veio. Ele não disse nada. E ela percebeu que talvez para ele, ela fosse apenas mais uma parte do nada. E por estar cansada de tudo, ela decidiu por fim tomar outro rumo. Fechou os olhos. E jogou as chaves longe. Ele perdeu o rumo. Ela perdeu a história.
                         Desde então ele sonha com ela. Desde então, ela não sonha com ele. 





             




                        Doeu, né? Pode confessar que doeu quando você ligou e ela não atendeu o telefone. Que doeu todas as vezes que ela ignorou as mensagens no celular... Eu sei que dói muito ser ignorado. E você ficou pensando em tudo que ela tinha prometido, e tudo que você planejava viver com ela. Você olhou pela nogentésima vez a foto dela no celular, e ficou pensando o porque de tudo isso.
                        Deixa eu te contar uma coisa: isso não estava nos planos dela, sabia?  Verdade. Ela falou a verdade quando fez todas aquelas promessas lindas. Ela realmente acreditou que era pra sempre. Mais do que isso, ela quis, com todo o seu ser, que fosse para sempre mesmo.
                        Mas daí você pisou na bola. Sim, meu caro, você pisou feio. E não adianta ficar com esta cara de quem não está entendendo nada. Você errou e ela está magoada. 
                      Você errou quando ficou ligando ao invés de ir logo ao encontro dela. Você errou quando pediu que ela dissesse que hora devia chegar. Mulher não gosta disso. Mulher gosta mesmo é de surpresa: daquelas que tiram o fôlego, sabe?
                        Aquele negócio de fazer serenata, de mandar flores de surpresa, sem motivo nenhum. Mulher gosta de ser lembrada, de declarações de amor públicas. Não, meu amigo, você não pode ficar esperando que ela te diga tudo o que fazer. Não é disso que ela precisa. O que ela quer mesmo é alguém que saiba o que fazer e que adivinhe os desejos dela. Alguém que chegue do nada com uma garrafa de vinho debaixo do braço e a convide para ir assistir ao por do sol.
                      Você viu como o céu estava lindo hoje? Ela viu. E ela esperou que você aparecesse com uma cesta de piquenique e a levasse para ver o mar. Ou mesmo que você trouxesse uma vitamina para gripe dela, mesmo que fosse a errada. Ela queria apenas que você demonstrasse em pequenos gestos como ela é importante pra você...
                     Ela já cansou de quebrar a cara, já viveu relações em que se doou sozinha... ela já se sentiu muito mal ao lado de alguém. Quando você chegou, ela teve medo. Aquele medo que as pessoas sentem quando tem um dejavú... Mas o frio na barriga foi mais forte e ela resolveu tentar de novo. Ela ainda acredita no amor.
                         E, vou te contar, ela vai continuar acreditando. Mesmo que você resolva que não vale a pena esperar o coração dela se aquietar. Ela vai continuar a acreditar no amor. Mais que isso, ela vai acreditar no seu amor se você aparecer agora com aquela cara de quem fez arte e tem medo de ser punido.  Acho até que neste momento, ela vai te amar mais ainda. Porque é da natureza dela amar. Amar e perdoar. Amar e amar.



Foto: Simone Luz









                    Dá licença? Desculpa ai mas hoje eu preciso abrir as janelas. Tem um baita sol lá fora e eu quero muito sacudir a alma! Pensei em aproveitar o final de semana e arrumar todas as gavetas: tem uns sentimentos que não cabem mais em mim. Acordei nova. Aquela velha roupa da solidão ficou muito apertada, na verdade não me entra mais. Tinha alguns cachecóis de saudade que me sufocavam, então resolvi me desfazer deles também. No fundo do armário encontrei alguns ressentimentos tentando se esconder, mas não tive dó: arranquei-os e me libertei.
                   E tudo isto porque ontem, ao passar em frente do espelho, não me reconheci. Tinha tanta névoa nos meus olhos, tanta dúvida grudada na pele, que percebi que eu estava irreconhecível. Sim, eu precisava rasgar as velhas vestimentas e resgatar alguns sorrisos que tinham caído atrás dos móveis. Também notei que aquela mobília pesada da melancolia já estava muito batida, e o ar vintage que ela me dava não me agradava mais.
                  Chega um tempo em que a gente precisa se sacudir, se reinventar. Chega um momento em que o passado tem que ficar pra trás definitivamente, e o olhar só pode ter uma direção: o futuro. Entender isso não é tarefa fácil. Assim como dói se desfazer de roupas e objetos, largar os sentimentos que cultivamos por longo período nos deixa meio que assustados, sem chão. Mas como vestir a roupa da felicidade quando a túnica da amargura ainda nos engessa? Porque para se despir e tornar a vestir, é preciso que nos movimentemos... é preciso que participemos do processo. 
                  Por isso, dá licença. Hoje eu acordei diferente. Hoje eu acordei feliz.












                       Eu queria muito ter algumas palavras para te dizer. Confesso que é muito difícil ficar te olhando em silêncio, vendo teus olhos magoados me encarando. Não é que eu seja fria, não entenda o que estás sentindo... Eu só não sei traduzir em palavras o meu desconcerto... Eu não sei pedir desculpas. Mesmo diante de teu olhar acusador, e da consciência de ter errado... meu ego inflado e meu orgulho caótico se recusam a se vergar. E procuram encontrar na tua boca muda uma resposta que deveria estar aqui, dentro de mim.
                       Ontem, quando saíste de casa para caminhar, eu fiquei olhando pela janela... Observei teus passos leves... vi quando brincaste com o cachorro da vizinha, vi teu sorriso fácil iluminando o dia. Quando foi que eu perdi o controle deste filme? Essa história era pra ser de amor, não um drama. Eu queria tanto reescrever nosso roteiro...
                       Eu colocaria nele só sorrisos... abraços apertados, sessões de matinê no cinema no largo da pracinha... Teria muito algodão doce e balões coloridos... Gargalhadas ecoariam pelas paredes e se misturariam ao perfume das flores do jardim. O relógio só marcaria uma hora, porque eu faria o tempo parar naquele momento pra que a gente nunca brigasse, pra que não fosses embora nunca mais.
                      Nossa história deveria ter sido bem diferente, né? Se eu não tivesse teimado em alimentar fantasmas, se eu conseguisse acreditar em mim e no teu amor que hoje vejo tão cristalino... Engraçado que foi bem por isto que me apaixonei: pelo homem carinhoso e preocupado, que não conseguia ver uma lágrima rolar no rosto de ninguém.
                      Me apaixonei pelo mesmo cuidado que me fez sentir ciúmes... E agora o medo de te perder me deixa sem chão... Talvez seja o momento de eu repensar minhas atitudes... ou o momento de entender que te amar não foi em vão.






Foto by Simone Luz