Doeu, né? Pode confessar que doeu quando você ligou e ela não atendeu o telefone. Que doeu todas as vezes que ela ignorou as mensagens no celular... Eu sei que dói muito ser ignorado. E você ficou pensando em tudo que ela tinha prometido, e tudo que você planejava viver com ela. Você olhou pela nogentésima vez a foto dela no celular, e ficou pensando o porque de tudo isso.
                        Deixa eu te contar uma coisa: isso não estava nos planos dela, sabia?  Verdade. Ela falou a verdade quando fez todas aquelas promessas lindas. Ela realmente acreditou que era pra sempre. Mais do que isso, ela quis, com todo o seu ser, que fosse para sempre mesmo.
                        Mas daí você pisou na bola. Sim, meu caro, você pisou feio. E não adianta ficar com esta cara de quem não está entendendo nada. Você errou e ela está magoada. 
                      Você errou quando ficou ligando ao invés de ir logo ao encontro dela. Você errou quando pediu que ela dissesse que hora devia chegar. Mulher não gosta disso. Mulher gosta mesmo é de surpresa: daquelas que tiram o fôlego, sabe?
                        Aquele negócio de fazer serenata, de mandar flores de surpresa, sem motivo nenhum. Mulher gosta de ser lembrada, de declarações de amor públicas. Não, meu amigo, você não pode ficar esperando que ela te diga tudo o que fazer. Não é disso que ela precisa. O que ela quer mesmo é alguém que saiba o que fazer e que adivinhe os desejos dela. Alguém que chegue do nada com uma garrafa de vinho debaixo do braço e a convide para ir assistir ao por do sol.
                      Você viu como o céu estava lindo hoje? Ela viu. E ela esperou que você aparecesse com uma cesta de piquenique e a levasse para ver o mar. Ou mesmo que você trouxesse uma vitamina para gripe dela, mesmo que fosse a errada. Ela queria apenas que você demonstrasse em pequenos gestos como ela é importante pra você...
                     Ela já cansou de quebrar a cara, já viveu relações em que se doou sozinha... ela já se sentiu muito mal ao lado de alguém. Quando você chegou, ela teve medo. Aquele medo que as pessoas sentem quando tem um dejavú... Mas o frio na barriga foi mais forte e ela resolveu tentar de novo. Ela ainda acredita no amor.
                         E, vou te contar, ela vai continuar acreditando. Mesmo que você resolva que não vale a pena esperar o coração dela se aquietar. Ela vai continuar a acreditar no amor. Mais que isso, ela vai acreditar no seu amor se você aparecer agora com aquela cara de quem fez arte e tem medo de ser punido.  Acho até que neste momento, ela vai te amar mais ainda. Porque é da natureza dela amar. Amar e perdoar. Amar e amar.



Foto: Simone Luz









                    Dá licença? Desculpa ai mas hoje eu preciso abrir as janelas. Tem um baita sol lá fora e eu quero muito sacudir a alma! Pensei em aproveitar o final de semana e arrumar todas as gavetas: tem uns sentimentos que não cabem mais em mim. Acordei nova. Aquela velha roupa da solidão ficou muito apertada, na verdade não me entra mais. Tinha alguns cachecóis de saudade que me sufocavam, então resolvi me desfazer deles também. No fundo do armário encontrei alguns ressentimentos tentando se esconder, mas não tive dó: arranquei-os e me libertei.
                   E tudo isto porque ontem, ao passar em frente do espelho, não me reconheci. Tinha tanta névoa nos meus olhos, tanta dúvida grudada na pele, que percebi que eu estava irreconhecível. Sim, eu precisava rasgar as velhas vestimentas e resgatar alguns sorrisos que tinham caído atrás dos móveis. Também notei que aquela mobília pesada da melancolia já estava muito batida, e o ar vintage que ela me dava não me agradava mais.
                  Chega um tempo em que a gente precisa se sacudir, se reinventar. Chega um momento em que o passado tem que ficar pra trás definitivamente, e o olhar só pode ter uma direção: o futuro. Entender isso não é tarefa fácil. Assim como dói se desfazer de roupas e objetos, largar os sentimentos que cultivamos por longo período nos deixa meio que assustados, sem chão. Mas como vestir a roupa da felicidade quando a túnica da amargura ainda nos engessa? Porque para se despir e tornar a vestir, é preciso que nos movimentemos... é preciso que participemos do processo. 
                  Por isso, dá licença. Hoje eu acordei diferente. Hoje eu acordei feliz.












                       Eu queria muito ter algumas palavras para te dizer. Confesso que é muito difícil ficar te olhando em silêncio, vendo teus olhos magoados me encarando. Não é que eu seja fria, não entenda o que estás sentindo... Eu só não sei traduzir em palavras o meu desconcerto... Eu não sei pedir desculpas. Mesmo diante de teu olhar acusador, e da consciência de ter errado... meu ego inflado e meu orgulho caótico se recusam a se vergar. E procuram encontrar na tua boca muda uma resposta que deveria estar aqui, dentro de mim.
                       Ontem, quando saíste de casa para caminhar, eu fiquei olhando pela janela... Observei teus passos leves... vi quando brincaste com o cachorro da vizinha, vi teu sorriso fácil iluminando o dia. Quando foi que eu perdi o controle deste filme? Essa história era pra ser de amor, não um drama. Eu queria tanto reescrever nosso roteiro...
                       Eu colocaria nele só sorrisos... abraços apertados, sessões de matinê no cinema no largo da pracinha... Teria muito algodão doce e balões coloridos... Gargalhadas ecoariam pelas paredes e se misturariam ao perfume das flores do jardim. O relógio só marcaria uma hora, porque eu faria o tempo parar naquele momento pra que a gente nunca brigasse, pra que não fosses embora nunca mais.
                      Nossa história deveria ter sido bem diferente, né? Se eu não tivesse teimado em alimentar fantasmas, se eu conseguisse acreditar em mim e no teu amor que hoje vejo tão cristalino... Engraçado que foi bem por isto que me apaixonei: pelo homem carinhoso e preocupado, que não conseguia ver uma lágrima rolar no rosto de ninguém.
                      Me apaixonei pelo mesmo cuidado que me fez sentir ciúmes... E agora o medo de te perder me deixa sem chão... Talvez seja o momento de eu repensar minhas atitudes... ou o momento de entender que te amar não foi em vão.






Foto by Simone Luz













Trouxe flores por um sorriso
Que espero um dia me dês,
Pedaço de um sonho conciso
Na ondas de tua voz...
Pois viajo por entre os silêncios
Dos versos que não me dizes...
Navego nos lábios inertes
Com que embalas o meu paraíso...
E se te observo enlevada
Quando te prostras por fim...
É porque simplesmente acredito
Nas promessas de teus olhos pra mim...
Ah, sou tola, bem o sei...
E creio em todas as tuas mentiras...
Pois julgo serem promessas
Que me fazem tonta, e menos perdida...
Trouxe meu sorriso,
Te entrego.
Assim como meu coração...
Confesso,
Abandonei-me sem reservas...
Sobre os restos de meu orgulho
Por entre as malas no chão...



Foto: Simone Luz








Quando eu resolvi virar a página, não sabia que o encontro estava marcado. Não tinha a menor idéia de que, quando eu virasse aquela esquina, ia encontrar você. Eu vinha calma, absolutamente distraida de tudo, quase que anestesiada. Eu tinha desistido de ser dois. Ou melhor, eu já tinha me habituado a ser só. 
Como se nada mais tivesse importância, eu vi você sorrindo para mim. Eu juro que vi o sol no teu sorriso. Merda. Merda. Merda. Não era pra ter sido assim. eu deveria ter passado sem olhar para os lados, como sempre. Devia ter deixado meus olhos cegos me conduzirem a passos firmes rumo a lugar nenhum. Como sempre. Eu não podia ter deixado você bagunçar meu mundo com um sorriso. 
Minhas pernas bambearam, e nunca mais eu consegui andar sem que teu perfume me embalasse. Juro que não sabia que meu mundo se abalaria novamente por um sorriso. Não podia nem mesmo em sonho imaginar que eu só conseguiria respirar ao sabor do teu perfume...
Eu não queria me apaixonar, sabia? Tudo bem que eu tinha ido passear no shopping aquele dia só porque eu sabia que você estaria lá... como também fui naquela festa só porque você tinha me convidado e... bem, vai que, né? 
Mas era pra ter sido apenas uma brincadeira, um flerte bobo, uma noite gostosa e só. Merda. Merda. Merda. Não era pra você carregar meu orgulho no bolso quando se vestisse pra ir embora. Isso não se faz, sabia?
Eu vinha tão sossegadinha, acreditando que não precisava mais de nada, que meu coração não iria voltar a saltitar enlouquecido. Eu não achei que voltaria a sentir o descompasso dos meus sonhos... Tinha certeza que a paixão tinha se aposentado da minha história, e que meu sangue não ficaria mais incandescente... 
Daí, sem pedir licença (e nem precisava mesmo...), você chegou, puxou uma cadeira, e se sentou no meio do meu coração. E eu, qual menina sonhadora, fechei os olhos e te deixei entrar.










Enquanto seus dedos deslizavam pelas cordas do violão, seus olhos brilhavam. A música suave que saía dos seus lábios, doce carícia nos ouvidos. Cada movimento dela parecendo uma dança sensual e despretensiosa... Ela não sabia de nada... não tinha noção de como sua presença embriagava o ambiente... não via como havia flores ao seu redor... sua imagem bailava entre os raios do sol que tentavam se sobrepor ao brilho dela.
Na rua, o transito caótico, as pessoas passavam correndo, esbarrando umas nas outras sem se ver de verdade. O barulho ensurdecedor de buzinas, a fumaça de cigarros e escapamentos de carro... Tudo era névoa e confusão em volta. Ela não estava só, estando.
Mas ela estava absolutamente imersa em seu mundinho particular, tocando e cantando como se não houvesse mais ninguém ali... Ela cantava para si mesma. E bebia cada palavra, cada tom, cada verso... Seus cabelos balançando ao languidamente, ao ritmo de sua voz... Ela sorria para si mesma. E se acariciava com a melodia de seu violão. 
Ela não tinha certeza de nada. Mas ela conhecia cada linha de suas indagações. E mergulhava fundo em todas as suas emoções. Ela ousava rir e chorar sozinha! Ela era tão dona de si, tão forte e frágil ao mesmo tempo... que foi inevitável. Ela se apaixonou por ela.